domingo, 19 de agosto de 2012

A Angústia | Jorge Forbes Clínica e Pesquisa em Psicanálise

A Angústia | Jorge Forbes Clínica e Pesquisa em Psicanálise

Sobre o diagnóstico de Autismo - CPPL

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Sabemos que as crianças ditas autistas têm linguagem, são capazes de interagir e estabelecer contato com o mundo externo. O que acontece é que elas fazem tudo isso de modo particular.
A nossa experiência clínica nos possibilitou perceber os efeitos nefastos do diagnóstico de autismo para a criança e seus familiares. Primeiro porque, quando se fala de autista, se fala de uma doença ou síndrome genérica e se perde a criança com todas as suas singularidades (particularidades) e potencialidades. Segundo, e pior, porque se descreve essa criança pelo negativo como alguém que não fala, não interage, não estabelece contato com seu entorno, não aprende, e tantos outros “nãos” que podemos facilmente encontrar nos vários check-lists disponíveis na internet. É o oposto disso que pensamos.
Concordamos, portanto, com o psicanalista britânico, D.W.Winnicott, que o autismo foi uma má invenção de Kanner. Isto significa que “é imprudente firmar diagnósticos. Tanto na primeira infância quanto na segunda; melhor dizer, em qualquer tempo da vida de um ser humano. E mais ainda: quando se trata do trabalho clínico psicanalítico, que deve abrir (e não fechar) as inúmeras possibilidades, para que cada um possa construir laços sociais, sorver a celebração de viver e contribuir numa sociedade humana. Não queremos moldar crianças assujeitadas, socialmente toleráveis. O que nos interessa é a criança fruindo a vida com todas as suas potencialidades, com um futuro em que há caminhos a escolher e percorrer" (Rocha (org.), 2006, p.11).

Danielle Maciel - Psicóloga e Psicanalista: Principais Convênios

Danielle Maciel - Psicóloga e Psicanalista: Principais Convênios: Atendimento através dos seguintes convênios: BACEN BRADESCO SAÚDE                                                   CASEMBRAPA CASSI...

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

NOTAS SOBRE O DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DA PSICOSE E DO AUTISMO NA INFÂNCIA

Psicologia USP - Notes on the diagnostic differences between psychosis and autism in childhood

Trabalho da Psicanalista Maria Cristina Kupfer, muito rico e interessante sobre as vicissitudes que envolvem o difícil diagnóstico diferencial entre autismo e psicose.

O artigo aborda a discussão em torno do diagnóstico diferencial da psicose e do autismo infantis, mostrando a falta de concordância entre os autores psicanalistas. Busca, em seguida, delinear um diagnóstico diferencial a partir da proposição de que no autismo falha a função materna e na psicose infantil falha a função paterna.
Descritores: Diagnóstico. Crianças autístas. Psicose infantil. Relações mãe-criança. Relações pai criança. Psicanálise. Linguagem.


Um dos principais entraves ao avanço dos estudos sobre a psicose infantil e o autismo está na disputa diagnóstica. A falta de concordância entre profissionais impede, logo de saída, qualquer estudo epidemiológico, e dificulta enormemente as trocas científicas, já que os pesquisadores não estão falando do mesmo objeto de pesquisa - o autista do neurologista não é o autista do psicanalista.
Tampouco entre os psicanalistas há um consenso. Sob a rubrica "psicose e autismo infantil," que designa o diagnóstico dos transtornos graves dentro do referencial psicanalítico, encontram-se estudos de autores como Klein (1921-1945/1970, 1932) e Tustin (1984). Na esteira do pensamento de Jacques Lacan, situam-se Mannoni (1977, 1979, 1987), Dolto (1972, 1985), Rosine e Robert Lefort (1984). No entanto, tal profusão ainda não é suficiente para que se tenha uma definição precisa das diferentes manifestações dessas patologias. Mais do que isso, não há um consenso sobre o que sejam verdadeiramente uma psicose infantil ou um autismo infantil, e tampouco sobre a sua etiologia.
Na tentativa de produzir uma uniformidade diagnóstica, a Associação Americana de Psiquiatria passou, desde 1994, a colocar dentro de uma mesma categoria as crianças que eram anteriormente classificadas como psicóticas e autistas, não importando as causas admitidas, em sua quarta edição do Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais (DSM-IV). Às crianças desta ampla categoria foi atribuído o nome de "portadores de distúrbios globais do desenvolvimento."
Embora tal classificação possa facilitar as trocas entre os profissionais da área, ela não produziu contudo um avanço real na compreensão desses quadros, já que deles fornece apenas uma descrição. Assim, os psicanalistas prosseguem utilizando-se dos diagnósticos de psicose infantil e de autismo.
Os diagnósticos de psicose infantil e autismo têm uma história recente. Até o início deste século, o olhar médico ainda não havia subtraído, do grupo das crianças deficientes mentais, aquelas que apresentavam bizarrices, alheamentos, auto-agressões ou desconexões significativas ao lado do rebaixamento intelectual. Para a sociedade, todas eram deficientes, e todas votadas ao cruel destino dos adultos doentes mentais: o recolhimento em asilo e a alienação.
Essas crianças, porém, sempre existiram. Temos notícias delas através de lendas tradicionais ou através de obras literárias tais como Niliouchka, de Gorki (citado por Rosenberg, 1991)
Dentre os inúmeros problemas a serem enfrentados, há a discordância sobre as diferenças entre a psicose infantil e o autismo, que ocorre mesmo entre psicanalistas de diferentes filiações teóricas.
Mahler (citado por Ledoux, 1989), por exemplo, incluía o autismo dentro do quadro geral das psicoses infantis. De acordo com Ledoux, Mahler, inicialmente, estabeleceu uma distinção nítida entre o que ela chamou de psicose autística e psicose simbiótica. Na primeira, a mãe parece não ser percebida como elemento externo, e não é investida libidinalmente, o que aproxima essa categoria com a clássica de autismo. Na psicose simbiótica, a representação psíquica da mãe existe, mas fusionada ao self; essa segunda categoria aproxima-a da psicose infantil clássica. Após 1951, essa nitidez desaparece, já que, para Mahler, podemos encontrar um largo espectro de traços autísticos e simbióticos no interior da síndrome psicótica infantil.
Melanie Klein, ainda de acordo com Ledoux, diagnosticou como esquizofrênico o célebre pequeno Dick, quando, de acordo com sua descrição, ele talvez recebesse hoje o diagnóstico de autismo. Isto mostra o desacordo em que se encontravam e ainda se encontram os psicanalistas a respeito dessas diferenças diagnósticas.
"Há evidentemente diferenças radicais," afirma Ledoux (1989):
... entre o autismo infantil precoce e outras formas menos severas de psicoses. Diferenças no nível do funcionamento mental, dos mecanismos em jogo. Alguns hesitam em colocar o autismo precoce severo sob a mesma rubrica estrutural que outras formas de psicose, e podemos nos perguntar também se, no plano etiopatogênico, estamos lidando com a mesma coisa, com os mesmos "fatores." Para outros, não há sentido em isolar o autismo infantil. (pp. 333-334)
Rocha (1997) e seu grupo de trabalho preferiram abordar todas as patologias infantis sob a rubrica de "autismos." Ela explica:
Durante muito tempo utilizávamos, no Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem (CPPL), o termo psicose infantil precoce englobando autismo e psicose simbiótica. Neste trabalho [referindo-se aqui ao livro que o CPPL publicou em 1997] usaremos o termo autismo para denominar estas duas patologias, à medida que se distinguem de todas as outras patologias da infância. (p. 16)
Atualmente, os esforços dos psicanalistas vêm se concentrando na direção de definir dois quadros distintos para o autismo e a psicose.
Jerusalinsky (1993) marca radicalmente a diferença, e propõe que se entenda o autismo como uma quarta estrutura clínica, ao lado das três outras – psicose, neurose e perversão – propostas por Lacan. Em entrevista concedida à revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, Jerusalinsky responde do seguinte modo quando indagado se a psicose e o autismo são ou não estruturas diferentes:
No que se refere à lógica que articula a posição do sujeito a respeito do significante, eu diria que entre psicose e autismo não há nenhuma identidade de estrutura, porque num caso se trata da forclusão e no outro se trata da exclusão. É evidente que no campo lacaniano não há unanimidade neste ponto, porque há quem considere (segundo a lógica que tome como referente) a exclusão como um caso particular da forclusão, mas esse não é o meu ponto de vista. A diferença entre forclusão e exclusão consiste em que, no caso da forclusão se produz uma inscrição do sujeito numa posição tal que esta inscrição não pode ter conseqüências na função significante. No caso da exclusão não há inscrição do sujeito; no lugar onde a inscrição deveria se encontrar, se encontra o Real, ou seja, a ausência de inscrição. Esta diferença radical de estrutura conduz a efeitos clínicos observáveis. (p. 63)
Para ser mais simples, pode-se propor, como o faz Jerusalinsky, uma forma de diferenciar psicose de autismo nos seguintes termos: no autismo, falha a função materna; na psicose, falha a função paterna.
Kanner escreveu em 1943:
Desde 1938 nossa atenção foi atraída por um certo número de crianças cujo estado difere tão marcada e distintamente de tudo que foi descrito anteriormente, que cada caso merece – e espero que acabe por merecer – uma consideração detalhada de suas fascinantes peculiaridades. (1997, p. 111)
De fato, desde 1938 Kanner havia isolado, dentro do grupo maior das psicoses infantis, já estabelecido nosograficamente tanto pela Psiquiatria Infantil como pela Psicanálise, uma nova categoria que, segundo ele, tinha as características de uma síndrome. A ela, Kanner deu o nome de Autismo Infantil Precoce, tomando o termo autismo de empréstimo a Bleuler, que o havia cunhado em 1911 para designar um dos sintomas da esquizofrenia (Postel & Quétel, 1987).
Este grupo havia chamado a sua atenção por uma série de características: os que nele se enquadravam eram incapazes de estabelecer relações, os que tinham linguagem não a usavam para comunicar-se, possuíam uma excelente capacidade de memorização decorada, reagiam com horror a ruídos fortes ou objetos em movimento, tendiam à repetição, mas eram dotados de boas potencialidades cognitivas. Finalmente, Kanner observou que todos vinham de famílias extremamente inteligentes. Mais que isso, ousou comentar que as mães das crianças pareciam frias e distantes, insinuando que talvez isso pudesse relacionar-se também com os problemas de contato daquelas crianças. Ou seja, Kanner oscilou, no transcurso de seus textos, entre considerar a dimensão do orgânico na etiologia do autismo – uma síndrome genética – e enfatizar as relações mãe-bebê para explicá-lo.
As observações de Kanner se espalharam como um rastilho de pólvora pelo mundo do entre-guerras, e muito particularmente no seio da cultura americana, na qual trabalhou. Em primeiro lugar, a palavra "fascinante" não veio à toa em sua pena. O mundo já parecia estar preparado e mesmo aguardando o recorte que Kanner acabara de criar. E fascinou-se. O autismo ganhou rapidamente as revistas, o cinema e, mais tarde um pouco, a literatura. A criança autista ganhou status de "avis rara," atiçava a curiosidade, mas era ao mesmo tempo escondida pela mãe. O autismo tornou-se uma criação moderna.
Mas Kanner não causou apenas fascínio. Provocou também o repúdio das mães de autistas, que protestaram contra a idéia de que eram "frias." "Amamos nossos filhos," elas diziam, "e ninguém tem o direito de dizer que somos culpadas pelo autismo de nossos filhos." Organizaram-se em associações e puseram-se a lutar por direitos não se sabe bem do que, como é o costume dos americanos. Kanner teve de recuar e, em 1946, escreveu Em defesa das mães (Kanner, 1946/1974). Pareceu não saber mais o que fazer com sua observação sobre as mães.
Para os psicanalistas, a observação sobre o lugar das mães na montagem do autismo não é nada desprezível. Muitos deles puseram-se a buscar essas relações, mas não parecem ter sido mais felizes que Kanner. Hoje esses psicanalistas são o alvo de ataque das mães, que se associam em AMAS por todo o mundo e fogem deles como o diabo da cruz.
Mas é possível hoje recolocar a questão, afirmando: as mães têm razão - e Kanner também.
Para esse grupo de especialistas, não são as mães reais, com seus sentimentos, sua devoção, sua encarnação em um papel social que exercem bem ou no qual acreditam, que estão na base da eclosão do autismo infantil precoce. São as mães postas no exercício de uma função que desconhecem exercer, e que cumpre descrever.
No exercício dessa função, uma mãe sustenta para seu bebê o lugar de Outro primordial. Impelida pelo desejo, antecipará em seu bebê uma existência subjetiva que ainda não está lá, mas que virá a instalar-se justamente porque foi suposta. Desenhará com seu olhar, seu gesto, com as palavras, o mapa libidinal que recobrirá o corpo do bebê, cuja carne sumirá para sempre sob a rede que ela lhe tecer.
Essa tarefa não depende de nenhum ato de volição, mas se faz em um cotidiano construído de pequenos e imperceptíveis reconhecimentos recíprocos, dos quais escutar o choro de seu bebê sem que ninguém mais o houvesse escutado é apenas um exemplo banal e já conhecido. Do lado do bebê, é muitíssimo cedo que o vemos virar a cabeça, reencontrar a gestalt do rosto materno que saíra de seu campo de visão, e lhe sorrir. Esse processo está descrito por Lacan através da metáfora do espelho, que, segundo ele, é o primeiro tempo na constituição de um sujeito, inaugurado pela construção da imagem do corpo a partir do desejo ou do olhar materno.
Quando esses atos de reconhecimento recíproco começam a falhar, e se perde a sua constante realimentação, vemos surgir, logo por volta de seis meses de idade, os primeiros traços autistas. O bebê não olha para ninguém, e evita especialmente o rosto materno. Podem surgir as primeiras hipotonias: o bebê sentado não fixa a cabeça, que cai para o lado já que não há por que olhar. Mais tarde, a boca, não erotizada, não recortada pelo trabalho materno de fazer nascer a pulsão oral, - nisso que é pura carne, pura necessidade - estará sempre semi-aberta, hipotônica, sem tônus: a criança exibirá uma baba constante, a deslizar por entre seus lábios moles.
Os detratores da Psicanálise objetam: não seriam esses processos de troca entre mãe-bebê por demais inexpressivos, e não seria um exagero imputar-lhes a responsabilidade por uma patologia tão grave e definitiva como é o autismo?
A isso se responderá que a relação mãe-bebê opera sobre um universo de grande complexidade, que começa com o equipamento material com o qual a criança vem ao mundo e termina no entorno social em que mãe e bebê encontram-se mergulhados. Mas não se deve com isso minimizar o valor do encontro mãe-bebê. Somente ele poderá permitir que um bebê faça uso de seu equipamento, inteiramente inoperante se não houver quem o pilote. Mais que isso, esse equipamento sequer existirá se não houver quem o construa. Assim, poderemos estar diante de um equipamento defeituoso, que uma mãe poderá "saber" pilotar, enquanto outras ali sucumbiriam. Poderemos estar diante de um equipamento completamente inoperante, e uma mãe não poderá humanizá-lo de jeito nenhum, em que pesem seus esforços. Falhou a função materna, não porque a mãe não tivesse condições de exercê-la, mas porque seu bebê não podia absorvê-la.
Mas a razão última para o autismo continua sendo a falha da função materna. A partir do colapso da função materna, muitos poderão ser os efeitos. Poderá ocorrer uma inoperância radical da função e do desejo maternos, o que resultará em uma ausência de imagem do corpo, já que o principal dessa função é a construção do mapa libidinal do corpo. Nesses casos, estaremos diante do autismo infantil precoce. Mas poderão ocorrer falhas pontuais, a que alguns teóricos chamam de falhas na especularização, e aí surgirão os traços autistas, que aparecem de modo associado a outras patologias.
O melhor exemplo disso é o surgimento de traços autistas na síndrome de Down.
Logo que a síndrome foi descrita, incluíam-se entre os seus sinais patognomônicos, isto é, aqueles que pertencem inequivoca e estruturalmente à sindrome, os traços autistas. De fato, em 97% dos casos eles surgiam. Jerusalinsky (1989) descreve, porém, uma pesquisa realizada no Centro Lydia Coriat que desmente essa ligação indissociável entre Down e autismo. Naquela pesquisa, o acompanhamento analítico precoce da relação mãe-bebê impediu o surgimento dos traços autistas, que costumavam ocorrer após os dois anos de idade, persistindo em apenas 1% dos casos. Como explicar esses resultados?
Para as mães das crianças Down, é muito difícil reconhecê-los como filhos. Mais que isso, não podem reconhecer-se neles. Não podem sublinhar neles um traço imaginário que prezam, ou de alguém com quem se identificam. Isto impede o reconhecimento recíproco e a conseqüente inscrição em uma filiação. Quando a criança é impedida de entrar na linguagem, surgem os traços autistas, denotando falhas na especularização, embora essa criança ainda não possa ser considerada um autista infantil precoce típico e acabado.
Afirmou-se que, para os psicanalistas, tanto as mães como Kanner têm razão. Isto é possível caso se adote a diferença entre os termos culpa e responsabilidade. A partir de Kanner, duas correntes de explicação e tratamento foram se tornando cada dia mais nítidas. De um lado, uma "medicalização," uma biologização do autismo e das psicoses, em busca, por exemplo, de falhas nos neurotransmissores. Nessa primeira, a "desculpabilização" das mães é absoluta. De outro lado, foi tomando vigor a corrente psicanalítica, na qual há uma grande ênfase na psicogênese do autismo, ou seja, entendem-se esses quadros como o efeito de uma relação patogênica mantida entre mãe e filho.
Nenhum psicanalista, em sã consciência, pode negar que um bebê seja antes de mais nada um feixe de nervos. E acolherá como bem-vindas todas as experiências que puderem avançar no conhecimento das bases neurológicas de todas as patologias. Um psicanalista acredita, porém, que o corpo de um bebê jamais sairá de sua condição de organismo biológico se não houver um outro ser que o pilote em direção ao mundo humano, que lhe dirija os atos para além dos reflexos, e principalmente, que lhes dê sentido. Assim, de nada adiantará um organismo absolutamente são se não houver quem o introduza no mundo do humano, vale dizer, da linguagem.
De outro lado, acredita o psicanalista que uma criança com sérios problemas neurológicos encontrará sérias dificuldades para encontrar um piloto capaz de fazer-lhes face. Conclusão: contrariamente a aquilo que se divulgou, e em que as mães das AMAS acreditam, um psicanalista não culpa mãe alguma. Mas a responsabiliza.
Responsabilizar uma mãe significa fazê-la perguntar-se a respeito da parte que lhe cabe na criação de seus filhos. E isto serve, diga-se de passagem, para todas as mães, convenientemente "desculpabilizadas" e desresponsabilizadas pela sociedade de massas, interessada em fazê-las deixarem seus filhos em creches e diante da televisão para correr atrás de novos valores fálicos no mundo do consumo.
Responsabilizar uma mãe significa engajá-la neste movimento de resgate do que não pôde acontecer quando seu filho era ainda um bebê, seja porque ele não facilitou as coisas por ser, por exemplo, cego, surdo, ou hipotônico, seja porque ela vivia um momento em que se encontrava "apagada" para o exercício da função materna.
Culpá-la, de outro lado, significa apoiar-se nos sinais imaginários que a nossa cultura habituou-se a pensar como relevantes quando se trata da maternidade: pegar no colo, acarinhar, amar loucamente seu bebê são sinais que, ausentes, podem fazer adoecer, segundo os cânones de nossa cultura. E segundo os de Kanner. Uma mãe que não os exerce pode então ser culpada: você não o ama o bastante, você o deixou abandonado aos cuidados de uma babá, dizem em uníssono a mídia, os pediatras e muitos educadores mais severos. Mas se pudermos deixar de lado esses sinais imaginários, então será possível encontrar, de um lado, uma mãe "fria" – que não fica o tempo todo a agarrar e beijar seu filhinho –, que foi capaz de exercer sua função, que pôde colocar em ação seu desejo insconsciente, e de outro, uma mãe efusiva, amorosa, que não pôde, todavia, olhar para seu filho de modo a fazer operar a especularização. Nenhuma delas é intencionalmente culpada, mas ambas são responsáveis pelos destinos subjetivos de seus filhos.
Os psicanalistas que escutam as mães dessas crianças, que as deixam falar, que lhes abrem as condições para que se dê esse corajoso enfrentamento de si, têm colhido resultados. Ao lado dessa escuta, têm proposto novas abordagens de tratamento das crianças, inspiradas na Psicanálise, e novas formas de reintroduzir essas crianças no mundo da cultura e da escola. Têm acompanhado os progressos da Medicina. Resta agora esperar que também os médicos reconheçam nossos resultados, e se sentem conosco para planejar a melhor maneira de mudar os destinos, até agora francamente desfavoráveis, dessas crianças em nossa sociedade.
Ainda no âmbito da discussão diagnóstica, cabe mencionar que as crianças incluídas na categoria nosográfica de autismo infantil precoce são em pequeno número: 4 em cada 10.000, de acordo com números americanos. Aquelas que carregam traços autistas associados a outras patologias são, porém, em maior número. E há também as chamadas pós-autistas, categoria cunhada por Kanner para incluir as crianças que mostravam uma saída do autismo infantil precoce, exibindo olhar direcionado para o outro e demonstrando que estariam se iniciando as relações com um outro localizado como tal.
Os traços autistas surgem, como já se disse, associados a outras patologias. Surgem também na psicose infantil, já que também para eles o estágio do espelho não se estruturou convenientemente.
Uma última questão. Mais acima, afirmou-se ser o autismo uma criação moderna. Ora, se ele é efeito de uma falha da função materna, não deveria ser encontrado em outros momentos históricos?
Uma primeira tese a ser examinada é a de que os autistas sempre existiram. Atestam-no as crianças-fada das lendas irlandesas, crianças cujas almas eram furtadas por duendes e que adquiriam os traços cuja descrição os aproxima daquilo que hoje chamamos de autistas. Na literatura, também fizeram aparições esporádicas, de acordo com Rosenberg (1991). Não se conhecem outros rastros dessas crianças, que provavelmente se confundiam com as débeis, ou então eram submetidas por exemplo à eutanásia, como se fazia na Grécia Antiga com as crianças (cf. Jerusalinsky, 1989). Talvez morressem "naturalmente," simplesmente porque, embora o autismo seja uma particular maneira de vida sem sujeito, uma existência dessubjetivada é quase impossível, como mostra Spitz (1996) em seus estudos sobre o marasmo seguido de morte nas crianças institucionalizadas que não criavam vínculos com seus cuidadores.
A segunda tese é a de que o autismo seria uma criação moderna sem precedentes na história da humanidade. Volnovich (1993) afirma: "As contradições e paradoxos da modernidade colocam a infância num lugar de testemunha, onde seus sintomas, incluída a loucura, falam muito menos de um avatar psicopatológico e muito mais de uma produção conflitiva da liberdade" (p. 33).
"Produção conflitiva de liberdade" é, para Volnovich, a expressão que resume o mal-estar contemporâneo. É o que resulta de uma representação social da infância na sociedade moderna, marcada por uma reafirmação narcisista e por um ocultamento do sentido da história do sujeito através de uma pseudo-informação oferecida pela educação. Assim, para ele a produção da loucura tem raízes sobretudo histórico-políticas.
A terceira tese, com a qual estamos mais inclinados a concordar, afirma ser o autismo um significante moderno que dá  nome a um fenômeno estrutural na constituição do sujeito, nome esse que o representa porém, dentro de uma particular inflexão do discurso social contemporâneo, e que ao representá-lo, o recria.
O autista de hoje não é o mesmo que poderia ter surgido no mundo antigo, porque esse nome moderno, criado por Kanner, recorta e cria uma nova realidade. Cria, com o poder de criação do significante, um novo autista. Que prolifera, vai à mídia, aos filmes, que enternece. Significa algo para a sociedade, hoje.
O autismo de Kanner nasce em estreita conexão com a culpabilização das mães. Em movimento oposto, são desculpabilizadas pela Psiquiatria Biológica: o problema está  na falha dos neurotransmissores, dizem esses teóricos. Independentemente de que isso efetivamente possa ocorrer - embora não se saiba se é o autismo que a provoca ou se é o contrário - o uso que a sociedade faz disso é o seguinte: ao serem desculpabilizadas (e precisam sê-lo, pois efetivamente não têm culpa), são pelo mesmo ato desresponsabilizadas.
Isto é a criação moderna. Nas histórias das crianças-fada, as mães tinham de cuidar para que seus filhos não fossem roubados. Hoje, em um típico movimento moderno do discurso cínico, não há  lugar para responsabilidades. O autista moderno da mídia e dos psiquiatras não é filho de uma falha na responsabilidade de suas mães e, no entanto, cura-se com o carinho e a dedicação delas. Ora, o remédio adotado não revela justamente a causa da doença? A sociedade moderna vê no autista a denúncia de sua falha, a denúncia do modo como está  tratando suas crias. Choca tanto ou até mais do que a infância abandonada, pois pode surgir no meio dos lares abastados.
O autista não poderá deixar de sofrer os efeitos desse lugar moderno em que está situado. Sofre os efeitos desta significação social, carrega a exclusão da linguagem e da circulação social, submetido a técnicas de condicionamento para permanecer aí, na borda, lugar em que ele, de forma valente e surpreendente, se equilibra. Não significa o mesmo que significava a criança louca de alguma aldeia medieval, para cujo núcleo social a sua "doença" não significava nada parecido com a denúncia de falhas do funcionamento social, e que inquietava apenas por aquilo que ela "devolvia" a respeito da posição subjetiva de cada um frente à linguagem.
Há, portanto, uma estrutura autista reveladora de uma especial posição subjetiva na linguagem (ou quem sabe, de uma posição a-subjetiva na linguagem), mas há  também o significante "autismo," cunhado pelo social, que recria essa estrutura, tendo efeitos sobre o modo como essa criança é apresentada por seus pais, e sobre o modo como é tratada e, portanto, sobre essa criança mesma.
Psicose: falha da função paterna
Já é bem conhecida a afirmação de Lacan (1955-1956/1966) segundo a qual uma psicose se estrutura a partir da forclusão do significante Nome-do-Pai. Dito de outra maneira: a presença onipotente da mãe – ou, se se preferir, da língua materna – impede a operação da função paterna, essa que poderia carregar consigo aqueles significantes capazes de funcionar como pontos de basta, como articuladores, como pontos nodais dos feixes de cadeias significantes necessárias à constituição e ao exercício de um sujeito.
Para cunhar o termo forclusão, Lacan baseou-se em dois textos freudianos: História de uma neurose infantil, no qual Freud (1918/1973a) utilizou o termo Verwerfung – "rejeição" – para se referir ao mecanismo de defesa da psicose, e A perda da realidade na neurose e na psicose, (Freud, 1924/1973b).
A forclusão, o recalque e a recusa são reunidos como três modos de defesa em Freud; Lacan os toma na mesma vertente e acrescenta que esses são os três modos básicos de defesa, denominando-os estilos de obturação da falta no Outro.
A partir da noção de forclusão do Nome-do-Pai, a psicose passa a ser entendida como uma posição subjetiva na qual o sujeito não pode responder quando uma situação-limite exige o acionamento do Nome-do-Pai.
Para Lacan, o significante Nome-do-Pai é um significante primordial, cuja ausência provoca um "furo" no campo das significações. Lacan acrescenta ainda que os significantes Nome-do-Pai, excluídos da cadeia, da rede simbólica da qual emergem as significações, não simbolizados portanto, retornam sob forma alucinatória. Desse modo, pode-se entender o delírio do psicótico como um fato de linguagem, um modo particular da relação de um sujeito com a linguagem.
Mannoni (1987) tem um modo bastante próprio de conceber a psicose infantil:
O destino do psicótico se fixa a partir da maneira pela qual foi excluído por um ou por outro dos pais de uma possibilidade de entrada numa situação triangular. É isso que o destina a não poder jamais assumir qualquer identidade. Preso desde o seu nascimento num quadro de palavras que o fixam reduzindo-o ao estado de objeto parcial, é preciso, para que possa entrar um dia como sujeito no tratamento, que o sistema de linguagem no qual se encontra aprisionado se modifique de início. É em seguida somente que vai poder ser resolvido pela linguagem. (p. 124)
A tese central da concepção de Mannoni a respeito da psicose infantil é a de que a criança psicótica faz parte de um mal-estar que é o efeito de um discurso coletivo. As condições para a cura de uma criança psicótica só são operantes a partir das transformações que deverão ocorrer no nível da palavra da criança que, alienada no discurso dos pais, precisará se separar desse discurso.
Em relação às diferenças entre psicose no adulto e na criança, Lacan (1954-1955/1988), no Seminário II, é enfático ao afirmar que a psicose não se dá, "de jeito nenhum," da mesma maneira na criança e no adulto.
Assim, há autores que seguem essa direção apontada por Lacan, e buscam as particularidades do estabelecimento da psicose infantil. Entre eles estão, por exemplo, Calligaris (1989):
Quando falamos que a construção de uma estrutura precisa de um tempo, de fato queremos dizer que precisa de tempos. Eu conto quatro pelo menos. Primeiro, uma disposição já inscrita no Outro, e que por sua vez já precisa de uma sucessão de tempos lógicos para ser eficiente. Segundo, algo relativo à primeira relação com o Outro dito "materno." Terceiro, o tempo do Édipo. Quarto o tempo da latência e a saída na puberdade. Eu não falaria de estruturação neurótica ou psicótica que seja, antes deste quarto tempo. Portanto, quando falo de psicótico fora da crise, que nunca encontrou crise, quero dizer que nunca encontrou desde este quarto tempo que sanciona a sua estrutura. Deste ponto de vista, poderíamos dizer que só se pode falar propriamente de foraclusão da função paterna como efeito de uma crise depois do quarto tempo. Já que o conceito mesmo de foraclusão conota um "tarde demais", que só valeria depois do quarto tempo. (p. 67)
Jerusalinsky (1993) observa que se deve levar em conta, nessa discussão, o fato de que a estruturação subjetiva ocorre no tempo da infância, e por isso há algo de provisório nessa estruturação. "As psicoses infantis precocíssimas devem ser consideradas, de um modo geral, como não decididas," afirma ele em uma entrevista à Revista da APPOA (1993, p. 63).
Na psicose infantil, está em jogo uma palavra absoluta, uma palavra que oferece à criança um sentido único, que rouba da linguagem a sua flexibilidade, sua ambiguidade, suas múltiplas possibilidades. A criança é o falo de sua mãe, e nada mais. Seu Outro, para usar a linguagem lacaniana, é absoluto. "A criança psicótica está, mais que qualquer outra, prisioneira de uma palavra que dá fé e é lei; é uma palavra única, discurso a uma só voz, a de uma mãe ou um pai" (Cordié, 1994, p. 31).
O lugar do orgânico na discussão etiológica
Sabe-se, de outro lado, que os determinantes orgânicos têm sido postos à frente do diagnóstico com cada vez maior vigor. Mais que isso, têm sido invocados especialmente nos diagnósticos diferenciais. A síndrome do X frágil, embora nada definitiva no que diz respeito aos resultados de pesquisas (Schwartzman, 1995) quando confirmada em exames de cariótipos, costuma "acalmar" profissionais e pais, que se vêem diante de um autismo confirmado, definido, materializado em uma falha genética.
Diante da importância que tais diagnósticos médicos vêm tomando, qualquer discussão que gire em torno dos diagnósticos da psicose e do autismo não poderá ignorar o que se vem pesquisando nos âmbitos da Neurologia, da Genética, da Psiquiatria Infantil e da Fonoaudiologia.
No entanto, a Psicanálise tem demarcado claramente a irredutibilidade do discurso médico ao discurso psicanalítico. Clavreul (1983), em A ordem médica, afirma que "toda tentativa de fazer uma reconciliação superficial entre psiché e soma não é senão denegação do que instaurou a objetivação científica: a impossibilidade de deixar um lugar que seja para a questão do Sujeito."
Por ocasião de um curso sobre a abordagem interdisciplinar dos problemas de desenvolvimento na infância, Jerusalinsky (1996) discutiu as origens da fragmentação interdisciplinar e sua relação com a questão do sujeito:
O nascimento da Ciência Moderna e contemporânea trouxe como conseqüência um deslocamento do estatuto da verdade do sujeito para o objeto ... Nós nos dirigimos, na busca da verdade, muito mais ao objeto do que ao sujeito ... Esta suposição de que a verdade opera assim, ou seja, que está absolutamente colada ao objeto ... permeia a Psicologia, e portanto permeia as diversas disciplinas que se alimentam dela. E uma vez que se supõe que a verdade está no objeto, quanto menor o objeto, maior o nível de certeza que sobre ele se pode atingir. Assim é que surge a fragmentação, que vai dar nas especializações ... É por isso que o discurso das especialidades faz resistência à interrogação sobre a subjetividade. (p. 5)
Mais, porém, do que se posicionar criticamente em relação ao discurso da Ciência e da Medicina, torna-se necessário levar em conta alguns avanços da área médica. Afinal de contas, todos os profissionais dessa área conhecem os efeitos avassaladores que uma série de síndromes pode ter não apenas sobre o desenvolvimento da criança, mas igualmente sobre a constituição do sujeito do insconsciente. Basta lembrar que, até há bem pouco tempo, eram tão comuns os traços autistas em crianças com síndrome de Down que esses traços chegaram a ser considerados como patognomônicos daquela síndrome, como já foi aqui mencionado. Atualmente, alguns psicanalistas consideram que o corpo, em sua dimensão material, não comparece nesses casos como causa, mas como limite, e como provocador de ressonâncias de ordem fantasmática tanto para o sujeito infantil como para seus pais, a ponto de infletir sobre a especularização e ali se produzirem falhas, responsáveis pelo surgimento dos traços autistas.
Levar em consideração a dimensão do corpo em sua materialidade não é, certamente, tarefa fácil para um psicanalista, para quem o corpo é antes de mais nada corpo erógeno e construção significante. Mais que isso, não é possível pensar em uma soma dos diferentes tipos de diagnóstico realizados por profissionais de diferentes disciplinas. O perfil dessa criança resultante desses diagnósticos iria parecer-se muito provavelmente com o de um Frankenstein.
Há, no entanto, equipes interdisciplinares que vêm trabalhando na tentativa de fazer as especialidades girarem em torno de um mesmo eixo, sem que com isso se percam suas especificidades. E o eixo comum é uma só noção de sujeito, formulada pela Psicanálise. Embora trabalhosa, devido ao modo como se estabeleceram as especialidades, modo esse que as indispõe contra uma leitura do sujeito, é possível subverter essa marca de origem histórica das especialidades e propor uma prática interdisciplinar cujo ponto de articulação seja o sujeito posto em posição de ator fundamental.
Levin (1996) observa:
O enodamento do desenvolvimento corporal com a estrutura subjetiva é o campo privilegiado da interdisciplina. Recordamos que o sujeito se constitui e institui; não se desenvolve, mas se estrutura. Em troca, o corpo se constrói e se desenvolve, matura e cresce. A infância transita por esse inefável caminho onde o enodamento (tichè) entre a constituição subjetiva e o desenvolvimento psicomotor marca um trajeto balizado por particularidades, onde o sujeito infantil toma a palavra e se apropria de seu corpo. Consideramos que é "em" e "por" estes pontos de encontro entre estrutura e desenvolvimento que a clínica interdisciplinar tem sua origem e sua fundamentação em nosso campo de trabalho. (p. 20)
Diante dessas questões, alguns autores vêm propondo um reordenamento do campo diagnóstico. Os eixos não são mais as perguntas pelo orgânico ou pelo psicogênico, e sim a indagação pela posição do sujeito no enodamento do simbólico, do imaginário e do real. A pergunta a ser dirigida à criança, na perspectiva de um diagnóstico a realizar-se na transferência – o que caracteriza o diagnóstico em Psicanálise em oposição ao da Psiquiatria –, será a pergunta por sua posição subjetiva diante do Outro. Ao invés de psicóticos, encontraremos crianças postas em variadas posições, cujo eixo comum é uma falha no registro do simbólico, ou seja, o Outro não se estruturou como barrado,2 o que resulta em uma variedade imensa de manifestações fenomênicas. Ao invés de autistas, encontraremos crianças para as quais é o registro do imaginário que não se estruturou de modo conveniente, provocando igualmente uma grande gama de manifestações "subjetivas."
A introdução desse reordenamento diagnóstico poderá refletir-se, naturalmente, no tratamento. Nas falhas do imaginário, uma atenção à construção da imagem corporal. Nas falhas do simbólico, um reordenamento da relação da criança com o Outro, para barrá-lo, ainda que de modo ortopédico.
Kupfer, M. C. M, (2000). Notes on the Diagnostic Differences Between Psychosis and Autism in Childhood. Psicologia USP, 11 (1), 85-105.


Abstract: This paper discusses the differences between the diagnosis of the infantile autism and the one of psychosis in infancy. It shows the lack of agreement among psychoanalysts who have written about this theme and proposes a way of establishing the diagnostic difference: autism can be stated as a fail in maternal function, and psychosis as a fail in paternal function.
Index terms: Diagnosis. Autistic children. Childhood psychosis. Mother child relations. Father child relations. Psychoanalysis. Language.

sábado, 11 de agosto de 2012

ARTE E PSICANÁLISE: ENTRE DESMONTAGENS E REARTICULAÇÕES

“Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras.”
(CLARICE LISPECTOR, In: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres).

Não é de hoje que se procura encontrar conexões entre Arte e Psicanálise: já Freud, em seus estudos e escritos, estabeleceu relações entre obra de arte e psicanálise, em se tratando de desmontar e recriar mundos e sentidos. Tania Rivera, no texto “Gesto analítico, ato criador. Duchamp com Lacan”, afirma que “a psicanálise não se debruça sobre a arte como um terreno onde aplicar suas teorias, mas em busca de uma verdade sobre o homem de que as obras literárias e artísticas se aproximariam mais do que a ciência”. A arte, por sua vez, “não procura na psicanálise explicações ou interpretações”, mas talvez uma possa buscar na outra, explorando suas ressonâncias singulares no questionamento contemporâneo sobre o sujeito.(1) Pensando sobre estas conexões, escrevo este texto, no intuito de comparar, aproximar e entrelaçar alguns aspectos destas áreas do conhecimento, tentando apontar para a importância das desmontagens e rearticulações de verdades, signos, idéias e estruturas, propiciadas ao sujeito, pelas práticas da psicanálise e da invenção artística.
No texto “Escritores Criativos e Devaneios” (1908), (2) Freud compreende a obra de arte como substituto do brincar infantil, aproximando o artista ou escritor criativo à criança que, brincando, “cria um mundo próprio reajustando seus elementos de uma forma que lhe agrade, mantendo... uma nítida separação entre seu mundo de fantasia e a realidade”, nos lembra a psicanalista Giovanna Bartucci . No entanto, em “Além do princípio do prazer”, ensaio de Freud de 1920, que termina por estabelecer o conhecido dualismo entre pulsões de vida e pulsões de morte, será essa pulsão de morte, uma vez que não se articula no registro da linguagem, que imporá ao sujeito a necessidade de inscrição no registro da simbolização. A autora observa ainda que, a partir da “necessidade de produzir novos objetos para os circuitos pulsionais, o sujeito realiza rupturas no campo de objetos e símbolos, na visão de mundo constituída, e será exatamente isto que permitirá ao sujeito constituir, construir sua própria realidade de acordo com as leis que eventualmente conheça.” (3)
Esta possibilidade de romper com o óbvio e promover a desestagnação e rearticulação dos sentidos, que tanto acontece na criação artística quanto na prática da psicanálise, parece-me estar relacionada ao que diz Roberto Harari, em Por que Não Há Relação Sexual?, quando aponta a importância de “tentar fazer perceber de modo diferente das associações habituais, mas como algo insólito”, ao discorrer sobre a estranheza e estranhamento, (ostranenie), provocados às vezes pelas obras de arte, e também pelas intervenções analíticas. (4)
Neste livro, Roberto Harari, citando Lacan, lembra que “o intervalo é uma função vigente na direção da cura, de acordo com uma operação regida pela pulsão de morte”. Nesta operação, não se trata de “encher o analisante com novos signos”, diz Harari, mas “sim de confrontar o sem-sentido com a dimensão do vazio”, lembrando que o analista trabalha para promover uma “desconstrução egóica-sígnica”, e afirma ainda que “tanto no discurso literário como no analítico são cruciais os momentos de rareamento, de estranhamento, provocados pela aparição súbita de um significante de efeito inesperado”. (5)
Ainda no livro Por que Não Há Relação Sexual?, Roberto Harari recorre ao conceito de intervalo, e “condição intervalar”, apresentados na obra El Intervalo Perdido, do teórico contemporâneo de arte, o italiano Gillo Dorfles, para falar sobre a importância deste “tempo de separação entre elementos”, e relacionar as idéias de Dorfles à prática da psicanálise. Segundo Dorfles, teria acontecido um desaparecimento dos “intervalos” ou da “condição intervalar”, a partir da modernidade, o que poderia ser relacionado ao “horror vacui” presente em vários âmbitos da cultura e civilização contemporâneas. O italiano Dorfles observa a importância destes “espaços intervalares” em todas as manifestações artísticas e literárias, ao longo da história humana, e de sua ligação com o inacabamento, a fragmentaridade, o silêncio, o estranhamento...(6) Esse aspecto de separação, pausa, interrupção, capaz de fazer ressaltar determinados elementos – não só no terreno artístico – evocado por Dorfles e citado por Harari, ou seja, o conceito de “intervalo”, usado pelo teórico italiano, pode ser relacionado também à prática psicanalítica, onde os “procedimentos intervalares” permitem que o analista introduza diastemas (intervalos) inesperados que convocam à estranheza... “...um golpe do real”, capaz de provocar a “des-localização” do sujeito. Seria esta intervenção algo como um “corte”, através do qual pode emergir um plus, e acontecer alguma transformação.(7)
Giovanna Bartucci , ainda escrevendo sobre as relações entre arte e psicanálise, observa que o jogo de palavras não é mero artifício retórico, mas uma tentativa de recolher, dar forma e instaurar algum sentido para este tempo, que para além (ou aquém) da linguagem, é ele mesmo um tempo necessário, “um tempo que permite a emergência de um sujeito a partir deste corte, desta fenda, deste rombo, desta cratera, desta violência amorosa e necessária” que nós humanos denominamos falta. Assim, diz ela, é que “tanto a experiência psicanalítica, concebida como lugar psíquico de constituição de subjetividade” .... “quanto a arte, encontram na inscrição da pulsão no registro da simbolização e sua reordenação do circuito pulsional uma economia outra que possibilite o trabalho de criação, produção e ligação de sentidos, para “aqueles sujeitos cujos destinos como sujeitos será sempre o de um projeto inacabado, produzindo-se de maneira interminável”.(8)

Penso que podemos aproximar e entrelaçar estas idéias com as de Harari, bem como a noção de “intervalo” usada por Dorfles, a outros conceitos ligados à arte, literatura e psicanálise, uma vez que parecem evocar ou convergir para a “falta”, a “castração” necessária para que o sujeito possa emergir como desejante. A noção de “intervalo” como um “espaço vazio”, de pausa, silêncio, corte, abertura, parece dialogar também com as idéias de Michel Foucault e Maurice Blanchot sobre a linguagem e a arte, quando se trata de pensar neste espaço como o lugar do vazio, da morte, do nonsense, do neutro, do silêncio, da desaparição, mas, também, como possibilitador de movimento, de emergência e rearticulações de verdades e sentidos, de abertura para a reinvenção incessante do sujeito, a partir do encontro impactante com o “real”.
O texto “O pensamento do exterior”, escrito em 1966 por Michel Foucault, aborda o espaço vazio da linguagem, e fala sobre uma “experiência do fora”, que seria a abertura de um espaço neutro, onde a linguagem se escoa sem se configurar e sem nada configurar, oscilando entre o fora da origem e da morte, infinitamente a se repetir, sempre a recomeçar. Lúcia Oliveira Santos, em seu texto “O Ser da Linguagem, a Escritura e a Morte”, tece relações e encontra ressonâncias entre idéias de Blanchot e Foucault, observando que “é neste espaço – o espaço literário onde o sujeito se desfaz, o mundo é suprimido, o ser se dissimula, a obra tende à sua desaparição – que se dá a experiência da linguagem como escritura.” Esta autora lembra que neste texto de Foucault, uma homenagem do mesmo a Blanchot, aparecem estas idéias sobre a linguagem em sua relação com a morte, e a constituição do espaço literário como o “espaço neutro e vazio da linguagem”. (9)
No livro As palavras e as coisas , Foucault lembra que a linguagem moderna não remete nem a Deus nem ao homem, mas ao espaço vazio que é ela própria e, retomando idéias de Blanchot, diz que a literatura se dá como experiência da morte, do pensamento impensável (e na sua presença inacessível), como experiência da finitude...(10) Lúcia Oliveira Santos observa ainda que, tanto para Blanchot quanto para Foucault, a literatura não representa o mundo nem cria nele, mas o faz desaparecer, pois ela só existe a partir desta ausência, do vazio e do rumor que ainda perduram após o homem se dar conta do nada e da morte.(11) E, deste espaço neutro e vazio, onde se afirma a impossibilidade e a ausência de sentido, a desaparição das coisas e daquele que escreve, onde o escrever deixa de se abrigar num horizonte estável para ser tornar atividade de ruína, surge a escritura, a arte, a possibilidade de desmontagens e rearticulações incessantes de sentidos, a partir do encontro com o vazio que permite as reconstruções.
No conto “Amor”, em Laços de Família, de Clarice Lispector (12), como em outros textos clariceanos, podemos encontrar estas “aberturas” para um “espaço vazio”, silencioso e informe, indomesticável, que lembra o espaço neutro abordado por Blanchot. A escritura clariceana abre a brecha por onde vaza esta sensação de plenitude do não-sentido, permitindo a passagem tanto de personagens quanto de leitores para o estranho existente sob a crosta do cotidiano banal. Segundo Nádia B. Gotlib, em Clarice Lispector o exercício da linguagem funciona como exercício de “nomear o não-nomeável, e instrumento de “tocar no ponto que não é tocável(13). E, segundo Benedito Nunes, percebe-se nas obras clariceanas a tentativa de “dizer a coisa sem nome, descortinada no instante do êxtase, e que se entremostra no silêncio intervalar das palavras” : o sentido do real só é atingido quando a linguagem fracassa em dizê-lo.(14)
No conto “Amor”, de Lispector, a protagonista sente-se perturbada e estranha ao estar sozinha em casa, na “hora perigosa da tarde”, quando percebe em si o que chama de “desordem íntima”(15). Sua saída da rotina, quando resolve dar uma volta, acaba provocando uma espécie de ruptura em seu percurso, ou um desvio de sua rota banal, quando uma série de pequenos acontecimentos, aparentemente insignificantes, provocam nela certa perturbação e estranhamento, como o riso e o olhar do cego, que não a vê, o pacote de ovos quebrados, o chacoalhar do bonde, o passeio pelo Jardim Botânico, o encontro com os bichos, o silêncio, o cheiro de vida e de morte... É neste contexto que parece abrir-se uma fenda em seu cotidiano domesticado e banal, e algo aparece, algo inumano, incapturável, ao mesmo tempo assustador e fascinante. E, nestes pequenos desvios de rota, nestes acontecimentos que interrompem a linearidade de seu cotidiano ordenado - nestes intervalos, cortes, aberturas - surgem as sensações conflituosas do ser, entre fascínio e horror, diante do mistério do amor, da vida, da morte e do vazio.


Estas fendas no cotidiano da personagem clariceana fazem pensar nos intervalos, espaços vazios, já mencionados nos textos teóricos de Roberto Harari, e outros citados até aqui. Neste ponto, poderíamos arriscar uma aproximação entre o conceito de “intervalo” trabalhado por Dorfles, o teórico das artes, evocado pelo psicanalista Harari, ao conceito de “espaço vazio e neutro” desenvolvido por Maurice Blanchot, ao referir-se à literatura. Este espaço neutro, este intervalo, também pode ser entendido ou visto como uma abertura, uma “porta de passagem”, para usar palavras do próprio Blanchot, sendo que a mesma possibilitaria o encontro ou vislumbre do vazio, do horror do real. Segundo Blanchot, a linguagem está sempre pronta a passar do “tudo ao nada”, nos lembrando da dissolução. Já a teórica Júlia Kristeva, autora de Sol Negro, depressão e melancolia, afirma que as “construções ficcionais dão testemunho do hiato, branco ou intervalo que é a morte para o inconsciente.”(16) Lacan, por sua vez, no Seminário, livro 7, fala da “Coisa” fundadora do desejo, do vazio no centro do real, da falta comum a todos, de Das Ding, que escapa à significação e é indizível... (17)
No texto Água Viva, Clarice Lispector escreve: “Ouve-me, ouve meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa.”... “Capta esta outra coisa que na verdade falo porque eu mesma não posso. Lê a energia que está no meu silêncio. Ah, tenho medo de Deus e do meu silêncio.”(18) Retomando as noções trazidas até aqui, do intervalo entendido como espaço vazio, neutro, de silêncio e ruptura, de dissolução e morte, abertura, podemos pensar neste eco e oco silencioso das palavras, da escrita, da fala, como o próprio eco do vazio, como um lugar de incerteza onde se desmontam as verdades do eu, do sujeito condicionado em seus comportamentos repetitivos e rígidos. Todavia, é a partir do próprio confronto com o nada, com o vazio, num momento de corte e intervalo, que pode acontecer a desmontagem da repetição, a interrupção da fixidez, tanto através da prática da psicanálise, quanto do fazer artístico.
Segundo Lacan, a arte caracteriza-se por um certo modo de organização em torno do vazio, e tem como combustível esse vazio. Sandra Autuori, em seu texto “LACAN E A ARTE: catando migalhas”, lembra que, antes do que é escrito pelo autor, o que se tem é um papel vazio; do pintor, uma tela em branco, do escultor um nada. Há um nada antes da criação artística. Um nada que incomoda, que pulsa e insiste. Porém, quando a obra acaba, vira um resto, algo que não deu conta de dizer a que veio, e continua sempre faltando algo, o que parece levar o artista a nunca parar de criar, sempre outras obras. De acordo com Lacan, o objeto artístico “é instaurado numa certa relação com a Coisa que é feita simultaneamente para cingir, para presentificar e para ausentificar”. A arte presentifica a ausência, expõe a falta, é o resto exposto que faz restar.(19)

Em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarice Lispector diz: “Nós, os que escrevemos, temos na palavra humana, escrita ou falada, grande mistério que não quero desvendar com meu raciocínio que é frio. Tenho que não indagar do mistério para não trair o milagre. Quem escreve ou pinta ou ensina ou dança ou faz cálculos em termos de matemática, faz milagre todos os dias.” (20) E, em seu livro O Prazer do Texto, Roland Barthes escreve: “Texto quer dizer tecido; mas enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu acabado por trás do qual se conserva, mais ou menos escondido, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a idéia generativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido — nessa textura — o sujeito desfaz-se, como uma aranha que se dissolve a si própria nas secreções construtivas de suas teias”. (21)
Sandra Autuori lembra que, para Lacan, o belo é o último véu que nos protege do real. É um ponto de transposição. Porém, mesmo sendo uma última rede de proteção ao real, há uma exposição a ele e, portanto, o belo na arte sustenta o desejo, ao provocar enternecimento. A arte produz um efeito de regozijo em quem a olha. Este é um efeito singular no sujeito, efeito indizível, intraduzível, intransmissível em totalidade e que, por isso mesmo, comporta o furo do real.(22) Contudo, como aponta Xavier G. Ponce, a arte pode ir além do belo, e alcançar o sublime, um termo literário associado ao êxtase e à criação poética. O sublime, além de encantar, como o belo, pode ligar-se ao além do princípio do prazer, quando acontece uma experiência de dilaceração, criando assim um contraponto entre o encanto e o horror provocados pela obra de arte. Ponce descreve o advento da arte moderna como sendo o de instalar uma tensão entre a experiência de satisfação através do belo que encanta e a comoção proporcionada pela experiência do sublime. (23) Vários autores já sublinharam que a arte do século XX e a psicanálise, por terem nascido na mesma época, compartilham um mesmo “espírito”, que dividiu o sujeito definitivamente, porém, Ponce vai além disso ao propor que, com o divórcio entre a imagem e o sentido que ocorre na arte moderna, há uma quebra entre a obra de arte, o artista e o espectador, que é olhado pelo objeto artístico, sem que possa lançar mão de um sentido protetor.
Neste ponto, podemos pensar neste estranhamento provocado pela arte, bem como pelas intervenções psicanalíticas, como algo que provoca uma fratura ou o estilhaçamento do eu, a ruptura que permite a emergência do sujeito do desejo, ao propiciar a saída da fixidez do circuito pulsional, promovendo movimento e circulação do desejo, ao instigar o sujeito a produzir algo que o salve do abismo, sejam novas ligações de significantes, sejam rearticulações de sentido, através do rearranjo de seus pedaços e restos, de elos que possam sustentar sua frágil estrutura psíquica, e seu desejo. Assim, arte e psicanálise estão a serviço desta desmontagem do eu, ao mesmo tempo em que, por meio de seus cortes, abrem brechas, fissuras, pequenas fendas para o encontro do sujeito com o real, com das Ding, com o indizível, promovendo as sacudidelas necessárias à reinvenção constante de si e de suas verdades e percursos.
Na fase final do ensino lacaniano, a arte é entendida como quarto elo, ou seja, como algo que possibilita a amarração entre os outros elos do nó borromeano: o imaginário, o simbólico e o real. No Seminário 23, O Sinthoma, Lacan demonstra a importância de que um quarto laço venha realizar a função de manter o enlace entre os registros, como também delimitar a necessária distinção entre eles. De acordo com Lacan, este quarto elo, a arte, evitaria que o sujeito se perdesse no delírio psicótico, na invasão do imaginário. A partir do estudo da escrita de Joyce, Lacan fica “embaraçado” ao perceber que o escritor trabalhava diretamente no real da letra, a partir de novos sentidos que eram construídos, mesmo não sendo estes muito compartilháveis, e deste trabalho, extraía seu gôzo. (24) Neste caso, Lacan observa que foi a obra, a escrita literária, que funcionou como elo capaz de sustentar a estabilidade psíquica de Joyce, evitando o surto psicótico. Contudo, não apenas a partir da obra, mas do reconhecimento público e da valorização da mesma que lhe adveio, o escritor pôde manter seu equilíbrio psíquico, escrevendo seu nome como sujeito, acredita Lacan. A este quarto elo, Lacan chamou de sinthoma.
A psicanalista Maria Lídia Arraes Alencar, no texto “A escrita de Joyce como suplência da psicose”, diz que “ao tomar o exemplo da obra de Joyce como paradigma, Lacan reconhece no seu trabalho de desmontagem da língua inglesa, um ato de tomar as palavras ao nível de lalangue, de fazer da letra, enquanto lixo, parasito, um rio corrente sonoro, ao deixar-se invadir por sua polifonia, seguir o fluxo indecidível entre o fonema, a palavra e a frase, produzindo um escrito para não ler. Promove, desse modo, um curto-circuito no sentido usual das palavras, usando um tipo especial de equívoco, e, além dos efeitos que causou na literatura, serviu-se de sua arte como suplência à psicose”(25).

A partir da escrita sinthomática de Joyce, que faz Lacan avançar em suas teorias sobre o tratamento das psicoses, formulando novas visões e perspectivas, a arte, neste momento da teoria lacaniana, assume a função de amarrar o simbólico, o imaginário e o real, proporcionando certo arranjo, mesmo que bastante singular, da subjetividade, nos lembra Sandra Autuori. (26) A partir daí, podemos pensar nas relações entre as desmontagens e rearticulações de sentidos ou estruturas propiciadas pela prática da psicanálise e do fazer artístico, ao provocarem o encontro do sujeito com o vazio, mas, também, a partir destes intervalos, sustos, comoções e sobressaltos, passando pelas aberturas ou furos nos encontros com o real, propiciarem as reinvenções do próprio sujeito, possibilitando que, por um lado se mantenha a falta, que é condição para o exercício da subjetividade e, por outro, garantindo uma atribuição de potência ao sujeito, permitindo que ele não se perca nesta falta.
Doris Rinaldi, no texto “Joyce e Lacan: algumas notas sobre escrita e psicanálise”, observa que, com sua arte, Joyce inventa, a partir de pedaços de real que retornam nas epifanias e palavras impostas, uma escrita que faz um nome, enquanto Lacan sustenta no Seminário 23 sua própria invenção – a invenção do real. De acordo com esta autora, nesta fase final do seu ensino, Lacan tenta escrever o próprio sinthoma, marcando a importância de uma maior investigação da escrita (27). Neste ponto, já não importa o produzir sentido, e sim, o efeito de sentido, o saber-fazer com lalangue. Disso tudo, podemos ao menos concluir, provisoriamente, que, apresentando o Sinthoma como uma “escrita de gôzo”, Lacan dá novo estatuto a uma invenção que permite transformar lixo em letra, em luxo, ou transformar restos, traços e fragmentos em uma forma peculiar de prazer, de saber-fazer, a escritura, a arte.


*TEXTO DE ANA LUISA KAMINSKI, apresentado na Jornada Interna da Maiêutica, em Florianópolis, SC, em 10 de julho de 2010


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

(1) RIVERA, Tania. “Gesto analítico, ato criador. Duchamp com Lacan”. In: PULSIONAL Revista de Psicanálise, ano XVIII, no. 184, dez/2005, p. 65
(2) FREUD, Sigmund. “ Escritores Criativos e Devaneios”. In: Obras Completas de Sigmund Freud. Imago Editora, RJ, 1977, VOL. IX
(3) BARTUCCI, Giovanna. “Sublimação e processos de subjetivação: entre a psicanálise e a arte”. Psicanalítica freudiana, escritura borgeana: espaço de constituição de subjetividade. In: Cid, Marcelo; Montoto, Claudio César. Borges Centenário. São Paulo, EDUC, 1999.
(4) HARARI, Roberto. Por Que Não Há Relação Sexual? Organizadores: Carlos A. M. Remor et Al. José Nahar Ed., RJ, 2006, p. 135
(5) IDEM, Ibidem, p. 137.
(6) IDEM, Ibidem, p. 124 e 125.
(7) IDEM, Ibidem, p. 137.
(8) BARTUCCI, Giovanna. “Sublimação e processos de subjetivação: entre a psicanálise e a arte”.
(9) SANTOS, Lúcia de Oliveira. “ O Ser da Linguagem, a Escritura e a Morte : ressonâncias Foucault/Blanchot. Texto apresentado no X CONGRESSO ABRALIC, no RJ, 2006.
(10) FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: MartinsFontes, 1987.
(11) SANTOS, Lúcia de Oliveira. “ O Ser da Linguagem, a Escritura e a Morte : ressonâncias Foucault/Blanchot
(12) LISPECTOR, Clarice. Laços de Família. RJ: Francisco Alves Editora, 1993
(13) GOTLIB,Nádia Batella. “Um fio de voz: Histórias de Clarice”. In Paixão Segundo GH (edição crítica). Clarice Lispector. Florianópolis, Ed UFSC, 1988,p.161
(14) NUNES, Benedito. Introdução do Coordenador, In Paixão Segundo GH. Clarice Lispector. EdUFSC, 1988, XXVII-XXVIII
(15) LISPECTOR, Clarice. Laços de Família. RJ: Francisco Alves Editora, 1993
(16) KRISTEVA, Júlia. Sol Negro: depressão e melancolia. RJ, Rocco, 1989, p. 31
(17) LACAN, J. O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise, p. 149
(18) LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Ed. Círculo do Livro, 1973, p. 33.
(19) AUTORI, Sandra. “LACAN E A ARTE: catando migalhas”.
(20) LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Ed. Rocco, 1998, p. 92.
(21) BARTHES, Roland. O Prazer do Texto. Ed. Perspectiva,SP, 1977, p.112
(22) LACAN, J. O Seminário, livro 7 , p. 302
(23) PONCE, Xavier Giner. “Sobre parejas modernas: el espectador y la obra del arte”. Site na internet.
(24) LACAN, O Seminário, livro 23, O Sinthoma. Jorge Zahar Ed. Ltda, RJ, 2007(1975). CD ROOM.
(25) ARRAES ALENCAR, Maria Lídia. “A escrita de Joyce e a suplência na psicose”.
(26) AUTUORI, Sandra. “LACAN E A ARTE: catando migalhas”.
(27) RINALDI, Doris. “Joyce e Lacan: algumas notas sobre escrita e psicanálise.”. In: PULSIONAL Revista de Psicanálise.Ano XIX, no 188, DEZ/2006

segunda-feira, 30 de abril de 2012

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terça-feira, 17 de abril de 2012

Danielle Maciel - Psicóloga Clínica: II Simpósio de Desenvolvimento Infantil e Adolesce...

Danielle Maciel - Psicóloga Clínica: II Simpósio de Desenvolvimento Infantil e Adolesce...: http://cursos.fundunesp.unesp.br/psico_simposio_desenvolvimento_humano.php II SIMPÓSIO DE DESENVOLVIMENTO INFANTIL E ADOLESCENTE ...

II SIMPÓSIO DE DESENVOLVIMENTO INFANTIL E ADOLESCENTE





Objetivo




Discutir e problematizar os aspectos relacionados ao desenvolvimento infantil e adolescente sob o olhar de diversos profissionais.


Público Alvo




Psicólogos, Pedagogos, Assistentes Sociais, Graduandos: de Psicologia, Serviço Social, Pedagogiae demais profissionais envolvidos com o tema.


Programação

Tema 01 – DESENVOLVIMENTO INFANTIL

O nascimento de bebês prematuros, o impacto na família e a equipe de profissionais tendo em vista as possibilidades de intervenção.



Tema 02 – NECESSIDADES ESPECIAIS

Os aspectos emocionais, escolares, familiares e profissionais de pessoas com necessidades especiais.



Tema 03 – ASPECTOS DA VIOLÊNCIA: INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA

A manifestação da violência com crianças e adolescentes e seus desdobramentos para o desenvolvimento. Interface com família, educação e saúde.



Clique aqui para visualizar a programação completa.

PALESTRANTES

Ms. Ana Karina Fachini Araujo Ms. Dalka Chaves Ferrari
Ms. Ana Lucia Teixeira de Souza Ms. Daniela Alessandra Uga
Ms. Carla Anauate Ms. Eliete Fátima Ribeiro Ramos
Ms. Christiane Sanches Ms. Valéria Pereira


QUANDO ACONTECE?




15 e 16/09/2012
Sábado 15/09 – 08h30 às 18h30 Domingo 16/09 – 09h00 às 12h00



PERÍODO DE INSCRIÇÕES: Inscrições on line: até 01/09/2012



Inscrições recebidas até 31/07/2011

Profissionais: R$180,00 *Estudantes: R$150,00
Ou 2 parcelas de R$90,00 Ou 2 parcelas de R$75,00



Inscrições recebidas a partir de 01/08/2011

Profissionais: R$200,00 *Estudantes: R$170,00



Informações Adicionais:




Estudantes: enviar cópia do comprovante: último boleto ou declaração da universidade.

Forma de Pagamento: boleto ou *cheque pré-datado–

**(enviar junto com a ficha de inscrição nominal a Fundunesp, Av. Rio Branco,1210 – Campos Elíseos São Paulo/SP – A/C Joelma Santana)

Parcelamento: disponível para inscrições realizadas até 10/08, após somente à vista.

Cancelamento: será devolvido ao aluno 70% do valor pago, mediante envio de justificativa por e-mail até: 10/08/12.


Certificação




Os certificados serão expedidos pela FUNDUNESP para todos participantes do Simpósio que obtiverem 75% de presença e quite com o pagamento da inscrição.


Local de Realização e Secretaria de Cursos FUNDUNESP




FUNDUNESP - Fundação para o Desenvolvimento da UNESP
situada à Av. Rio Branco, 1210, Campos Elíseos, São Paulo - SP.


Comissão Organizadora




Ana Karina Fachini Araujo

Carla Anauate

Christiane Sanches

segunda-feira, 9 de abril de 2012

As inscrições para o 17º ENAPA estão abertas!

As inscrições para o 17º ENAPA estão abertas, faça sua inscrição, é gratuita, ma...s com vagas limitadas na modalidade a distância e presencial. Acesse: www.aconchegodf.org.br/unirparacuidar
 

Aconchegue-se…

Uma família para todos. Este é o ideal daqueles que militam e trabalham pela adoção e pela convivência familiar e comunitária de forma voluntária, técnica, responsável, guerreira, altruísta e alinhada aos direitos da infância e da adolescência, às necessidades dos milhares de meninos e meninas que moram nas instituições de acolhimento de todo o país.
O 17º ENAPA – Encontro Nacional de Apoio à Adoção trará para Brasília, sede do Aconchego e das decisões políticas do país, a formalização de um pacto nacional denominado “Unir para cuidar”, onde se lançará o desafio para que todos possam assumir o compromisso único de que todas as crianças e adolescentes possam ser chamados de filhos e filhas.
Soraya Kátia Rodrigues Pereira
Presidenta do Aconchego

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Reflexões sobre o texto de Oscar Cirino, "Diagnóstico Estrutural"

Antigamente, para a Psiquiatria clássica, fazer um diagnóstico implicava em colocar o doente em segundo plano. A doença passava a ser mais importante que o próprio doente. Isso acabou gerando um movimento contrário por partes de muitos médicos.
Como quase sempre acontece, surgiram por vezes posturas radicalmente opostas, onde não se queria mais tratar a doença, e sim o paciente.
Na busca deste equilíbrio, Freud sempre enfatizou a importância do diagnóstico para o tratamento, e que este seria o único exame que ofereceria ferramentas suficinetes para o início de uma análise.
Além de reconhecer que o diagnóstico seria uma oportunidade para se perceber se aquele seria ou não um paciente de análise.
Freud dizia ainda que o diagnóstico em si muitas vezes já seria o início de um tratamento.
O texto de Oscar Cirino, fala de estrutura enquanto conceito, e Freud menciona a diferença existente entre estrutura e sintoma, mas que existe uma relação entre os dois que deve ser levada em conta.
Outro ponto interessante sobre o diagnóstico é o fato de que ele só será comprovado depois de algum tempo de tratamento, e é ele quem conduz à cura.
Porém, é preciso ter cuidado em não deixar que este diagnóstico rotule ou sirva de previsão de andamento da análise, pois isso seria ir de encontro aoas preceitos da Psicanálise, quando esta diz que o analista não possue um saber antecipado do paciente.
Neste momento entre o olhar  para a doença ou o olhar para o paciente, Freud introduz a clínica da escuta.
Danielle Maciel.

terça-feira, 6 de março de 2012

Toulky po Praze / Prague walks

Curso de Formação em Psicoterapia Infantil - abordagem winnicottiana 16/01/2012
Coordenação: Dra. Sandra Maria Baccara Araújo Público Alvo: Psicólogos e estudantes partir do 9o. semestre comprovado Aula inaugural: dia 29 de fevereiro de 2012 Período: de 29 de fevereiro de 2012 a 19 de junho de 2013 Periodicidade: 2 aulas mensais, às quartas feiras de 19:30 as 22:30 horas Local: Condomínio Privê Morada Sul, Rua 23 módulo R casa 49 – Próximo ao Altiplano Leste Será conferido comprovação de conclusão da formação para os alunos que comparecerem à 75% do curso Valor do curso: R$ 5250,00, pago em 15 parcelas de R$ 350,00 até a primeira aula de cada mês e R$ 400,00 na segunda aula de cada mês Matrícula: corresponde à primeira parcela do curso, a ser paga no dia da aula inaugural Vagas limitadas
Reserva de vagas e maiores informações:formacaodww@gmail.com
PROGRAMA: 1o. semestre de 2012 Teoria do desenvolvimento em Winnicott 2o. semestre de 2012 A clínica em Winnicott – técnicas de trabalho clínico 1o. semestre de 2013 Supervisão em grupo ·